Postado em 5/3/2010
Old School Skate
Como era nos anos 80
Por Christian Matsuy
christian@globalexchange.com.br

Se você tem seus 30 e poucos anos hoje, com certeza deve se lembrar da febre que o skate era a 20 anos atrás, Se não andou, conhecia alguém que andava, nesse artigo conto um pouco de como foi viver nessa época!
Uma mesma história pode ser contada de diversas maneiras, dependendo do ponto de vista de quem o faz. Hoje quem conta a história sou eu, mais de 25 anos depois.
São Paulo...1985. Eu tinha 11 anos de idade quando vi uns caras andando de skate (na verdade já havia visto antes, mas nos modelos estreitinhos e bicudos) no bairro da Aclimação. Eles eram bem mais velhos que eu, aparentavam ter mais de 20 anos e obviamente não deixaram nem eu encostar no "brinquedo".
Lembro também que a única coisa que vi eles fazendo além de ficar em pé sobre o skate de forma bem tímida, foi segurar o skate debaixo do braço, ostentando o objeto. Mais tarde eu fui saber que o apelido desses caras era "comédia".

o começo de tudo, os skates fininhos "a la califórnia"
Em 1986 eu ganhei o meu, da marca H-Prol umas das pioneiras nacionais. Já sabia o básico, pois eu sempre que tinha uma oportunidade andava no skate dos outros. Infelizmente na época o skate era uma coisa cara, se fosse colocar em valores atuais deveria ser algo em torno de uns 400 reais ou mais, um bem básico. Como era caro, poucos tinham e nessa fase não havia muita concorrência. Da minha turma de amigos eu fui o segundo a ter. No Alto de Pinheiros a galera era bem mais ativa e foi por lá que surgiu o "Bebê Diabo" (organizado pela Mustabi Skates entre outros) um dos primeiros campeonatos de Street Skate de São Paulo, devido o bairro ter muitas ladeiras o pessoal praticava muito o down hill, modalidade que consiste em descer as ladeiras fazendo manobras para conter a velocidade.
Nada melhor pra ilustrar essa época que esse vídeo produzido pelo Badeco da Mustabi:
Bebê Diabo: o começo dos campeonatos de street downhill em São Paulo
Mas em 1987 o skate já estava bem mais popular e já haviam muitas marcas e lojas especializadas, as primeiras revistas e campeonatos começaram a aparecer. Surgia também a cena do Skate-Punk no Brasil, como uma nova "tribo", com a mistura das bandas de hardcore de Los Angeles e os elementos visuais do skate. Creio que nessa fase o skate brasileiro ainda não tinha encontrado sua própria identidade, mas estava no caminho... Começamos a ter referências internacionais, através das revistas e dos raríssimos videos que eram produzidos nessa época. O skate crescia de forma meteórica, era fácil ver turmas de 10, 20 skatistas andando pelos bairros fazendo das calçadas e outras intervenções urbanas como obstáculos. O parque do Ibirapuera virou a praia dos skatistas e a marquise com seu concreto liso, era o palco da galera. Alguns obstáculos, trilhos "brotavam" na marquise, na verdade eram feitos pels frequentadores e todos ali curtiam. Conheci as primeiras "lendas" na marquise, como o Thronn, um skatista que marcou uma época, por seu estilo de se vestir, de criar e reinventar as manobras dos gringos e acima de tudo ser uma pessoa que conversava com todos (seu model foi inovador, com o bico levantado, tendência usada atualmente). E não tinha hora pra andar, principalmente fim de semana, era comum rolar night sessions varando a noite. As sessions com o Thronn e a galera de Moema deixaram muitas saudades!

Model Thronn - arte de Billy Argel e fabricação da LifeStyle Skates
Nossa madeira começou a ficar muito valorizada, a arte da serigrafia nos models era um retrato da época e o Billy Argel desenhava para as 3 grandes marcas nacionais, e até hoje o cara é considerado uma lenda viva na Deckgrafia.
Billy Argel e sua arte - um marco no skate brasileiro.
O skate estava tão em alta que até programa de TV especializado tinha, era o Grito da Rua, apresentado pelo também lendário Badeco Dardenne (dono da Mustabi), dava 3 pontos no Ibope o que era razoavelmente bom para um público tão segmentado. Era no Grito que assistíamos os caras de outros bairros andando e víamos trechos de videos da Powell Peralta* e Santa Cruz* em primeira mão. Coincidência ou não esse ano eu repeti no colégio... Por que será hein?

Em 1988 o skate continuava crescendo. São Bernardo do Campo (apelidada de Bernô) tinha a maior Skate Park pública de concreto que foi reformada ganhando uma ampliação. (Já foi reformada pela terceira vez e ganhou mum "full pipe"). Skatistas renomados vieram andar aqui, entre eles Hosoi, Ventura ente outros. A Ultra Skate Park também apareceu com seu half pipe de madeira de proporções absurdas para a época, era uma pista que dava medo de olhar. Com seu um metro de vertical, ela separava os homens dos meninos. Posso até estar falando besteira, mas essa rampa foi uma divisora de águas, ela elevou a qualidade do skate brasileiro. Não bastava saber andar de skate, era necessário muito mais que isso. Poucos amadores se arriscavam. Todos os brasileiros que foram campeões mundiais (Ueda, Burnquist, Mineirinho, Cristiano) ou têm destaque no exterior, começaram na Ultra. Passar o dia em um skate park era complicado devido aos gastos, mas pra tudo tinha um jeito, beber água da torneira, pegar o ônibus só da ida e voltar andando, era comum. O Skate começou a ser interpretado por alguns como "coisa de maloqueiro". Na verdade era só uma coincidência com os bolsos vazios. Nenhum pai ficava dando dinheiro assim de mão beijada e isso era comum a todos meus amigos. Mas sinceramente, nada como as ruas de Sampa pra andar de skate, Paulista, Praça Roosevelt, estações do Metrô, Ibirapuera, as ladeiras do Sumaré, o Anhangabaú.... For fun. Just for fun.

Tribanks de São Bernardo do Campo
E toda turma tinha que ter suas rampas. Era uma espécie de "identidade", e a idéia é cada cada turma tivesse uma rampa diferente, assim nós sempre iámos andar na rampa de "fulano". E dava trabalho fazer, arrumar madeira nas obras do bairro, passar tardes serrando, batendo martelo e tudo mais que se tinha direito. E haja vizinho reclamando!
Andávamos em bandos de dez, quinze skatistas nas ruas, sem destino certo, queriamos mesmo era desafiar os obstáculos naturais da cidade, mas o prefeito da época (Jânio Quadros) decidiu proibir o skate nas ruas! Fugir da guarda municipal já havia virado rotina, pular muros, jogar o skate no quintal de alguém e vir buscar depois que a polícia passava era normal. O adesivo mais popular dessa época era um com os dizeres "Skateboarding is not a crime". Mas a proibição durou pouco, a galera foi as ruas, se organizou em passeatas e o mandato do Jânio estava terminando, que foi substituido pela Luiza Erundina em 1989, derrubando a tal lei. Tá certo que todo skatista é folgado, mas as ruas eram e sempre serão nossas!

Famoso Adesivo da época!
Mas o mais legal era você estar no Ibirapuera, ou São Bernardo com centenas de skatistas de outras regiões, gente que não conheciamos e não haviam brigas, era uma grande irmandade. Mesmo andando em outros bairros, era comum se agregar e andar todo mundo, junto se conhecer não era uma necessidade.
E foi assim que eu (e muitos da minha época), passamos alguns anos de nossa juventude. Não quero comparar o skate atual com o dos anos 80 e 90, cada um tem suas peculiaridades e estilos que ficam difíceis de serem comparados, além do que a evolução do skate como um todo trouxe muita mudança.
* Powell Peralta, (George Powell e Stacy Peralta) esse segundo skatista lendário da década de 70 na Califórnia, um dos primeiros skatitas profissionais e membro da Z-Boys, os garotos da Zephyr, uma das primeiras skateshops na face da terra. A Powell formou a equipe Bones Brigade, patrocinando os melhores skatitas da época. Sempre pioneira lançou os videos "The search for Animal Chin" (1987), "Public Domain" (1988), entre outros.

Um dos muitos logotipos da Powell Peralta
* Santa Cruz, marca concorrente ditera da Powell, difícil dizer qual a melhor, pois tinha uma linha muito diferente bem como os skatistas patrocinados por ela. A marca tinha grafismos mais psicodélicos. Patrocinou skatistas famosos como Natas Kaupas, que não andava em campeonatos e foi protagonista do video Wheels of Fire (1988). A roda que ilustra o começo desse post é da Santa Cruz.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." (Nietzsche)
Links de interesse
Powell Peralta
Santa Cruz Skateboards
Grito da Rua - Alto de Pinheiros!
The Z-Boys - o começo verdadeiro de tudo.
Comentários (1)
Avaliação média:
Por - em 24/4/2010 15:21:16

Pow cara, namoral seu depoimento sobre a era old school!é manero saber um pouco mais daquela epoca.Uma das mais emocionantes do skate!Ver como o skate ultrapassou todas as barreiras, nossa, bota emocionante nisso, cara!
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Sobre o autor...

Christian Matsuy é Consultor em Informática e Redes Sociais com 16 anos de experiência na área.
Tambem é o Editor responsável pelo blog e cuida da área de Tecnologia do Global Exchange. Escreve, periodicamente, matérias sobre assuntos diversos, voltados para a Comunidade de Intercâmbio.
Twitter: @matsuy
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